Sunday, November 26, 2006


Liberdade(na voz de João Villaret)


Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

Sossega, coracao! Nao desesperes! Sossega, coração! Não desesperes! Talvez um dia, para além dos dias, Encontres o que queres porque o queres. Então, livre de falsas nostalgias, Atingirás a perfeição de seres. Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo! Pobre esperança a de existir somente! Como quem passa a mão pelo cabelo E em si mesmo se sente diferente, Como faz mal ao sonho o concebê-lo! Sossega, coração, contudo! Dorme! O sossego não quer razão nem causa. Quer só a noite plácida e enorme, A grande, universal, solente pausa Antes que tudo em tudo se transforme. Fernando Pessoa - 2-8-1933


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada, descuidada.
Caiu, e eu fiz-me em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
E os deuses que há debruçam-se da escada.
Para ver o que a criada fez de mim
Não se zanguem com ela.São tolerantes com ela.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
E os deuses que há debruçam-se da escada
E sorriem à criada
Não se zanguem com ela.
São tolerantes...

A minha alma partiu-se como um vaso vazio
Caíu, partiu-se, caíu
A minha alma partiu-se como um vaso vazio
Caíu, partiu-se, caíu

O que era eu, o que era eu?
Um vaso vazio
O que era eu, o que era eu?

Alastra a escadaria atapetada de estrelas.
Ao fundo um caco brilha entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
E os deuses olham-o por não saber por que ficou ali.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
O que era eu, o que era eu?
Um vaso vazio
O que era eu, o que era eu?
Ai, o que era eu, o que era eu?
Um vaso vazio
O que era eu, o que era eu?

Thursday, November 16, 2006


És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

Fernando Pessoa, 1-1931
Gato que brincas na rua
Entre o Sono e Sonho...

Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho,
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre -
Esse rio sem fim.

Fernando Pessoa, 11-9-1933
Ah, mágoa de ter consciência da vida!
Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,
Que rasgas os robles — teu pulso de vida
Minh'alma do mundo!

Ah, se, como levas as folhas e a areia,
A alma que tenho pudesses levar -
Fosse pr'onde fosse, pra longe da ideia
De eu ter que pensar!

(...)

Horror de ser sempre com vida a consciência!
Horror de sentir a alma sempre a pensar!
Arranca-me, ó vento; do chão da existência,
De ser um lugar!

E, pela alta noite que fazes mais'scura,
Pelo caos furioso que crias no mundo,
Dissolve em areia esta minha amargura,
Meu tédio profundo.

(...)

Meu coração triste, meu coração ermo,
Tornado a substância dispersa e negada
Do vento sem forma, da noite sem termo,
Do abismo e do nada!

Vendaval
Fernando Pessoa

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

"Deixa que um momento pense
Que ainda vives ao meu lado...
Triste de quem por si mesmo
Precisa ser enganado!

Morto, hei de estar ao teu lado
Sem o sentir nem saber...
Mesmo assim, isso me basta
P'ra ver um bem em morrer.

Não sei se a alma no Além vive...
Morreste! E eu quero morrer!
Se vivo, ver-te-ei; se não,
Só assim te posso esquecer.

Se ontem à tua porta
Mais triste o vento passou
— Olha: levava um suspiro...
Bem sabes quem to mandou..."


Fernando Pessoa
Quadras ao Gosto Popular

Wednesday, November 08, 2006

pessoaeeu

Faltava a biografia...


Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas - a da minha nascença e a da minha morte
Entre uma coisa e outra coisa todos os dias são meus.
Sou fácil de definir...

Alberto Caeiro

Fernando Pessoa usava de forma exímia as palavras - sabia, melhor do que ninguém, que as palavras são etiquetas que se colam às coisas. É marcante a sua curiosidade por tudo o que ultrapassava os limites humanos. Figura cimeira da literatura portuguesa e da poesia europeia do século XX, Fernando Pessoa dedicou a sua vida a criar e divulgar a língua materna. Nas próprias palavras do poeta “a minha pátria é a língua portuguesa”. Com uma visão simultaneamente múltipla e unitária da vida, cativou o mundo com a sua escrita, misticismo e esoterismo. “É o escritor que consegue dar à poesia portuguesa, no século XX, o lugar de predominância e prevalência”, constata António Mega Ferreira, gestor e presidente da Fundação Centro Cultural de Belém. Uma figura universal. Fernando Pessoa nasceu em 13 de Junho de 1888, numa casa do Largo de São Carlos, em Lisboa. A morte do pai e do irmão, com apenas 1 ano, marcam-lhe a infância e adolescência. A solidão chega cedo. É nesta altura que surge o primeiro pseudónimo, Chevalier de Pas, e o primeiro poema, “À Minha Querida Mamã”. O casamento da mãe com o cônsul de Portugal em Durban, África do Sul, leva Pessoa a viver naquela cidade entre os 7 e os 17 anos. Ali recebe uma educação britânica e contacta com a língua e a literatura inglesas através de Shakespeare, Allan Poe, John Milton, entre outros. Em 1899, ingressa na Durban High School e destaca-se como um dos melhores alunos. Escreve os primeiros poemas em inglês. Como diz a jornalista Clara Ferreira Alves, “Fernando Pessoa quase que ia sendo um grande poeta inglês”. Só não foi porque lhe foi recusada uma bolsa para a Universidade de Oxford e, desiludido por ter sido preterido por um colega britânico, volta para Lisboa, sozinho, em 1905. “Se tivesse ganho a bolsa de Oxford, Pessoa seria, provavelmente, mais um daqueles casos como Pound ou T. S. Eliot.” Seja em que língua for, as suas primeiras pátrias - e, de resto, a sua última pátria - foram os livros. Quando chega, a língua portuguesa soa-lhe estranha. Inscreve-se no curso superior de Letras da Universidade de Lisboa, que acaba por abandonar no 1.º ano. Em 1912 Fernando Pessoa escreveu na revista “A Águia”, órgão da Renascença Portuguesa, uma série de artigos, posteriormente compilados em livro com o nome “A Nova Poesia Portuguesa”, que na altura geraram uma fugaz polémica. Os artigos de Fernando Pessoa revelam um conhecedor profundo da literatura europeia antiga e moderna, atento à evolução literária recente, e procurando os seus métodos de análise na história das Ideias. A sua versatilidade multiplicou-o por quatro ou cinco: assim nasceram os heterónimos. É com eles que Fernando Pessoa se torna extremamente enigmático. Passa a respirar, a transpirar, poesia. Em 1914 surgem os três heterónimos mais conhecidos: Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. “A sua poesia é de qualidade tremenda. A própria criação dos heterónimos é, ela mesma, portadora de poesia e uma lição existencial muito importante não só para o século XX, como para a actualidade”, refere o historiador Rui Tavares. Mas ainda aparece um quarto heterónimo, Bernardo Soares, autor de “Livro do Desassossego”. São individualidades distintas de Fernando Pessoa, com biografia e horóscopo próprios. Álvaro de Campos é o protótipo do vanguardismo modernista. Ricardo Reis, o clássico e estóico. Alberto Caeiro, o “único poeta da natureza”, como ele próprio o definia. Pessoa chega a ser considerado como um discípulo das suas criações. Para Pinto da Costa, professor catedrático de Medicina Legal, é muito complexo entender a personalidade do poeta. “Raia a psicopatologia, ultrapassa a própria psicologia e tem comportamentos que fogem da normalidade.” A heteronomia é a tentativa de Fernando Pessoa olhar o mundo de forma múltipla. Imprime mistério ao poeta. Já Fernando Pessoa ortónimo - quando escreve com o seu próprio nome - segue os modelos da poesia tradicional portuguesa. Os textos denotam suavidade rítmica e musical. Escreve “Mensagem”, poema místico sobre a história de Portugal e o único a ser publicado em vida. Ganha o prémio da segunda categoria do Secretariado de Propaganda Nacional. Mais do que os heterónimos, o ortónimo tem uma atitude perspicaz de ver as coisas. Pessoa é “o poeta da angústia existencial, da depressão, da melancolia, alguém que percebeu a crise da Humanidade e utilizou isso como matéria-prima essencial da própria escrita, da própria vida”, descreve o escritor Fernando Pinto do Amaral. Atacado de incurável melancolia, por vezes descrevia a sua compacta tristeza. Era, de certa forma, uma pessoa de sombra. Gostava de observar as coisas à sua volta, mas sem dar nas vistas. Pessoa era “um daqueles seres que estava desajustado no tempo, não cabia nos espaços e no corpo que lhe davam”, constata o escritor Fernando Dacosta. Fora do trabalho passava o tempo a cultivar-se em astrologia, a fazer crítica ou a escrever. Despertou o interesse dos críticos e publicou profusamente. “É uma pessoa surpreendente e transcendental”, comenta o jornalista Duda Guennes. Fundou com outros intelectuais, a revista “Orpheu”, que lançou apenas dois números por afrontar os conservadores das letras. Movimentava-se num círculo de amigos restrito que frequentavam as tertúlias intelectuais dos cafés de Lisboa. Travou amizade com Luís de Montalvor, António Ferro, Almada Negreiros e Mário de Sá-Carneiro. Envolveu-se nas discussões literárias - e políticas - da época. Começou por defender, num manifesto, a ditadura salazarista, mas, mais tarde, compôs três sátiras ao Estado Novo. A intervenção na política revelou-se um equívoco. Fernando Pessoa nunca esteve exclusivamente dedicado à literatura. Precisava de outro meio de subsistência. Trabalhou no comércio, a Luís de Montalvor, como tradutor de cartas e, depois, correspondente estrangeiro. Antes de ir para casa gostava de passar pelo depósito vinícola “Abel Pereira da Fonseca”, onde tomava a sua bebida favorita: aguardente. O consumo excessivo de álcool levou, segundo consta, à crise hepática que o vitimou em 30 de Novembro de 1935. Se Camões é um viajante, amante das mulheres, do mundo; Pessoa é o homem moderno, solipsista, centrado no “eu” e na experiência individual. É um grande poeta do Simbolismo e Modernismo. Era um homem de encantos súbitos. Escreveu sobre tudo. Sobre um giroscópio, uma faca, dobrada à moda do Porto, economia, sociedade e tudo o resto que lhe vinha à cabeça. Pegava num papel e numa caneta e escrevia. “Esse lado grafómano fascina-me porque liga-o absolutamente aos grandes modernistas”, revela António Mega Ferreira. Um caso extraordinário de polivalência, diversidade literária e mental, experiências, vivências e visão de futuro. “É um génio”, diz a escritora Clara Ferreira Alves.

Tuesday, November 07, 2006

pessoaeeu

Hoje tive uma conversa...

Cheguei a casa mais tarde do que a hora a que devia ter chegado.Mas não me arrependo. De facto, é neste aspecto que é útil a minha racionalidade por vezes exagerada, porque pelo menos me permite nunca me arrepender de nada do que digo ou faço.Ou pelo menos acreditar que não me arrependo. Mas como só me interessa aquilo em que acredito, assim estou bem.

Cheguei mais tarde porque estive à conversa com o meu grande amigo Bruno, a debater precisamente as coisas em que eu acredito (ou nas quais quero acreditar?). Estava complicado aquilo porque nem ele queria perceber o que eu lhe dizia nem eu queria admitir que ele tivesse razão. E continuo a não querer.Não, porque não acho realmente que ele tenha razão.

De qualquer modo, tendo surgido no contexto da conversa ele virou-se para mim e perguntou-me "então porque é que não te matas?", ao que eu respondi: "porque não tenho coragem". E a minha resposta disse-a com a noção do que cada palavra significa. Não teve nada de impulsivo, impensado ou irracional.Como aliás não o tem nada daquilo que eu digo ou escrevo. O que faço talvez, por vezes.

Mas é crítico que a uma semana de fazer dezassete anos eu esteja a responder isto à pessoa que melhor me conhece ( e mais uma vez não estou nem a exagerar nem a escrever irreflectidamente) e para quem não tenho segredos, apesar da ausência de entrega total da minha parte nas relações.

Não tenho coragem.E isso é que torna ainda mais revoltante o facto de estar viva e ter a vida que tenho,já que é a unica situação em que algo (o medo?) age sobre mim e não posso controlar o curso dos acontecimentos.Eu quero mandar na minha vida, o que certamente inclui determinar quando é que ela acaba. No caso, não passará de uma decisão impossível de levar a cabo dada a falta de coragem. O que vale é que há pessoas que dão uma ajudinha no sentido de a minha decisão ser executada mais rapidamente do que eventualmente a natureza queira.

Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!

De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?

Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células noturnamente conscientes
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atômica das coisas,
Pelas paredes turbihonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...

Álvaro de Campos


"Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo. "

Não só quem nos odeia ou nos inveja Nos limita e oprime; quem nos ama Não menos nos limita. Que os deuses me concedam que, despido De afectos, tenha a fria liberdade Dos píncaros sem nada. Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada É livre; quem não tem, e não deseja, Homem, é igual aos deuses. Assim para começar, este poema de Ricardo Reis resume não uma filosofia de vida mas uma Vida.Por isso decidi ser este o meu primeiro post, para que quem não me conhecer fique de certa forma elucidado acerca dos meus pensamentos.Devo ainda dar especial relevo aos versos que afirmam que quem nada quer é livre, uma vez que é esse o meu principal objectivo de vida.